19 de novembro de 2009
Lavagem Cerebral
O fato que narro aqui não é engraçado, mas é no mínimo interessante. Se estiverem procurando alguma história para dar risadas, sugiro escolherem alguma outra. Esta aqui é mais um relato curioso do comportamento humano do que uma história que farão vocês rirem.
Uma das coisas que aprendi durante a faculdade é que o poder de persuasão que os veteranos tinham em cima dos bixos era basicamente exercido de forma psicológica. Levou tempo pra entender como o mecanismo funcionava, mas depois que você entende como as coisas acontecem, é interessante ver o psicológico das pessoas frente a algumas situações que viviamos no nosso dia a dia.
Bixo revoltado era o que mais se dava mal. Quanto mais rebelde, mais sofria. Quanto mais low-profile melhor para o próprio indívíduo. Lembro que meu amigo Macumba, foi um dos bixos que menos sofreu no trote. Ele era o bixo que os veteranos chamavam de “pau pra toda obra”. Mal ordenava ele fazer algo, ele já estava fazendo. Bixo assim não sofria! Não tinha graça! O legal era dar trote naqueles que se recusavam a fazer as coisas, que ficavam pensando muito antes de aceitar o trote. Esses ai sim, tinha graça. Calouros como o Macumba, faziam os veteranos perder o interesse cedo e o bixo que percebia isto e aprendia este “truque” rapidamente, passava praticamente ileso pelo período dos trotes.
Um dos trotes que deixavam para aplicar nos bixos do alojamento, já ao final da primeira semana de aula era a famosa “lavagem cerebral”. Esse trote daria um laboratório incrível para estudantes de psicanalise e psicologia. Era realmente algo surpreendente e vou narrar aqui para que vocês possam perceber o que se passa na cabeça do ser humano mediante uma situação adversa.
O trote acontecia no banheiro do alojamento. Imagine um banheiro com estes de shopping, com várias pias, privadas, só que incluindo vários chuveiros também. Cada uma das oito alas do alojamento possuia um banheiro como este. Separavam os bixos em grupos de 10 aproximadamente e sempre deixavam o bixo “especial” sendo o último da fila.
O bixo “especial”, geralmente era o conhecido bixo rebelde. Aquele que se rebelava contra os trotes, que dizia que lutava karate, taekwondo ou qualquer coisa do tipo. Só que esqueceram de dizer a ele, ou o cerébro dele não era tão eficiente ao ponto de perceber, que ele era apenas um enquanto os veteranos eram as dezenas, pra não dizer as centenas.
Havia uma equipe que organizava o trote e executava. Era muito bem bolado, tenho que dizer. Dois veteranos tomando conta da fila, do lado de fora do banheiro e uns três ou quatro dentro do banheiro, com baldes d’água, cornetas, ou o que fosse, para gerar o clima de pânico no ambiente. Quando a fila era formada, entrava o primeiro bixo e os demais ficavam de fora do banheiro sem ver o que acontecia, mas ouviam muito bem o que se passava e esta era a intenção.
Se a fila tivesse dez pessoas como já disse, o “especial” ficava por ultimo e o trote com os nove primeiros acontecia da seguinte forma: O bixo entrava e um veterano falava para ele em voz baixa: “Nós vamos te jogar água, dar descarga na privada e você grita desesperadamente como se estivessemos te matando aqui dentro!”. Dito e feito, os veteranos começavam a gritar falando que iam enfiar a cabeça dele na privada, o bixo também gritava, davam a descarga, um outro veterano jogava um balde d´água no bixo e logo em seguida, tiravam o cidadão sem deixar que ele tivesse contato com os outros que ainda estavam na fila e ouviam toda a gritaria do lado de fora.
O psicológico era tão interessante, que me lembro que depois de 3 ou 4 bixos terem passado por isto, o próximo da fila já entrava praticamente enfiando a sua cabeça dentro da privada sem nenhuma reluta, sem nenhuma palavra. Era como um animal que vai pro abate e sabe que não tem para onde fugir. Nesta hora, seguravam o cidadão e aí explicavam toda a dinâmica do trote pra ele. Afinal de contas, este privilégio, de enfiar a cabeça na privada por conta própria, era apenas para o “especial”.
Quando chegava a vez do especial, me lembro que até os outros bixos eram liberados para ver o fato. Juntavam-se todos em volta da privada, os nove primeiros calouros ficavam mais atrás dos veteranos presenciando o evento e deixavam o bixo rebelde enfiar a cabeça na privada, sem dó nem piedade. Nesta hora geralmente a privada estava “preparada” para receber o cidadão. Creio que não preciso explicar aqui o que significa “preparada”, certo?
A bem verdade é que, após o período do trote, a relação entre veteranos e bixos se tornava amena. No meu caso posso dizer que os mesmos veteranos que me deram trote, me ajudaram muito depois que este período passou. O segredo da coisa como disse, era entender que o trote era parte do ritual da faculdade e se rebelar contra isso, não era coisa muito inteligente de se fazer.

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